⁠Riacho Doce, um novo Salgadinho?

Poluição no riacho tem causado transtornos para moradores e comerciantes

Wende Evangelho, Camila Barbosa, Carolina Amorim

“Antes não existia essa poluição. Tudo era bom. Havia casinhas perto, a praia era limpinha, no riacho eu tomava banho e brincava. Hoje não faço isso pela ‘seboseira’ que está”. Este é o relato de Clescia Azevedo sobre um riacho que deságua em uma praia. Mas ela não está se referindo ao Riacho Salgadinho e a Praia da Avenida em Maceió, e sim sobre o Riacho Doce, área que tem recebido diversos empreendimentos imobiliários e já é a segunda em crescimento imobiliário da capital.

Esse desenvolvimento tem preocupado o morador de Maceió, Fernando Aguiar, que encontrava em Riacho Doce um local para fugir da poluição das praias urbanas da cidade, como Ponta Verde e Pajuçara. “A tendência é que Riacho Doce vire um novo Salgadinho, já que a cidade está crescendo para esta área. Se não houver infraestrutura, vai ficar a mesma coisa. Então é aquela história: se cuida do turismo aparente, mas não se cuida da natureza que é o principal”, analisa.

O problema, segundo a moradora Ivonete Martins, já existe há bastante tempo. Ivonete diz que os efeitos da poluição em dias de chuva conseguem chegar até as margens da rodovia AL 101-Norte. “Há mais de 20 anos que o riacho tá assim. Quando eu morava lá, existiam peixes no riacho. A situação é péssima. Querendo ou não era o nosso rio. Rio em que a gente tomava banho. Hoje, meus filhos não tem esse direito. O problema mesmo é na parte mais próxima ao rio. Quando ele enche, o mau cheiro chega aqui”, relata.

Segundo os moradores, a poluição tem sido percebida principalmente em dias de chuva. O problema tem espantado os frequentadores da praia. “Há dias que até no comércio a gente perde, porque quando abrem a comporta lá no Boca da Mata, toda sujeira é solta no mar para o Rio não inundar o loteamento, e as pessoas vão embora da praia porque o cheiro fica insuportável. Isso acontece toda vez que chove; no carnaval foi horrível, perdemos muitos clientes, deu uma chuvada e até sofá veio parar na praia”, relata a proprietária de um bar e moradora de Riacho Doce, Elza Batista.

Ainda de acordo com Elza, nos últimos anos a situação do riacho vem se agravando. Para ela, algo deveria ser feito pelo poder público o mais breve possível. “Aqui a gente era acostumado a capturar lagosta, polvo e peixes com muita facilidade. Hoje é muito difícil encontrar. Acho que o Riacho já morreu mesmo, vida ali não tem. A praia já está sendo bem prejudicada também. Acho que deveria ter uma rede de esgoto e saneamento para poder melhorar as condições”, sugere.

Além dos dias de chuva, a maré alta também é motivo de preocupação para os moradores. Para a boleira, Rauane Assis, as vendas não caíram com a poluição porque as pessoas já não ficam em Riacho Doce e apenas param para comprar os quitutes. “Quando a maré tá cheia, o rio se encontra com o mar, e as vezes fica tudo preto. Isso não chega a atrapalhar muito nas vendas, porque a praia já não é muito procurada. As pessoas quando param aqui perguntam mais como chegar a Garça Torta”, justifica.

O empresário italiano Luca Sattin, proprietário de uma pousada em Riacho Doce, teme que o local fique como as praias urbanas de Maceió. “A gente trabalha muito, quem lê um pouco de Maceió, dá pra perceber que as praias da cidade não é muito feliz. Vim para Maceió, conheci Riacho Doce há algum tempo e me apaixonei, para mim não mudou nada, mas quero que fique assim, limpa”, exige.

Poluição sentida na pele

Começou com uma simples coceira, depois vieram as manchas na pele e a descamação intensa. Esses foram os sintomas que João Paulo, hoje com 13 anos, teve que aguentar durante um período de tratamento que durou um ano e meio. Quem relata o drama vivido por João é a sua mãe, Gilvania Batista, que teve dois dos três filhos acometidos pela doença de pele.

“Eu fui nascida e criada em Riacho Doce e os meus filhos sempre frequentaram a praia, desde pequenos. A minha filha do meio foi a primeira a aparecer com a coceira. Na época, o médico informou que deveria ter sido algum fungo da praia e após isso ela começou a evitar os banhos de mar com medo que a pele ficasse marcada”, relata Gilvania.

 

A mãe conta que, ao levar o João no médico, a mesma medicação da filha do meio foi prescrita, mas a doença não desapareceu. “Depois de correr atrás de uma resposta, um dos médicos disse que a causa foi banho em águas poluídas, descartando as hipóteses de fungo na areia ou algum outro verme raro. Foi quando percebemos que aquelas águas estavam mesmo impróprias para banho, com ou sem chuva”, explica a mãe.

A ex-moradora lamenta a situação atual do lugar onde nasceu e ressalta que mesmo sendo uma vila de pescadores muito bonita, a principal atração dos visitantes tornou-se um perigo para todos. Gilvania ainda confidencia que não permite mais que seus filhos tomem banho no mar.

“Foi um processo muito cansativo para nós e triste pra ele. Em pleno verão, o João ia de casaco pra escola, com vergonha de mostrar as manchas nos braços. Foi uma época muito constrangedora para o meu filho e quem é que paga por isso?”, indaga.

Observando o Riacho Doce

O projeto Observando os Rios, do Instituto Biota de Conservação, analisou a qualidade da água do Riacho Doce ao longo de 2016. O estudo classificou as águas do rio como ruim durante os meses de janeiro e fevereiro. Nos demais meses do ano, o resultado indicou qualidade regular. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) foi parceira da iniciativa, que ainda contou com o apoio da SOS Mata Atlântica.

As análises do projeto Observando os Rios foram feitas em todos os meses do ano e apontavam se a água estava boa, regular, ruim ou péssima, usando como parâmetro as condições climáticas, peixes, espumas, oxigênio dissolvido, transparência da água, fosfatos, cheiro, lixo flutuante, material sedimentado, pH, larvas e vermes, nitrogênio, temperatura, demanda química de O2 e o resultado mais alarmante: coliformes totais.

De acordo com uma das voluntárias do Biota e moradora de Riacho Doce, Silvanise Santos, o problema é bem mais complexo e envolve uma série de responsáveis, além dos poderes públicos. Dentre eles, os próprios moradores da região.

“É do conhecimento de todos que há uma deficiência no saneamento básico e que as tubulações, que deveriam ser utilizadas para o escoamento de águas pluviais, são usadas como canos de esgoto. O que a gente percebe é que os moradores estão cavando o próprio buraco. Eles reclamam dos órgãos públicos, mas são os primeiros a dar o passo inicial para a degradação do rio”, desabafa Silvanise.

A pesquisadora ressalta que a praia é um dos pontos de desova de tartarugas, mas o Instituto ainda não tem estudos sobre o impacto da poluição no habitat desses animais. Mesmo assim, Silvanise já adianta que se a água do rio está imprópria para qualquer atividade humana; o perigo para os animais é eminente. “Essa era uma água que as pessoas usavam para tomar banho, lavar roupa… e na minha infância tomei muito banho nesse mar, mas hoje, até para fazer análise eu uso luvas, pois ele está contaminado”, completa.

Poluição no Riacho traz sérios riscos à saúde pública e a vida marinha, diz especialista

A poluição em rios de áreas urbanas preocupa o presidente da Comissão da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, Anivaldo Miranda, que faz um alerta para os sérios riscos à saúde pública, provocados pela falta de saneamento. “Aquela área do riacho e a praia que vem logo em seguida pode trazer riscos à saúde dos banhistas, as pessoas estão expostas a doenças de pele”, afirma.

De acordo com o especialista, o problema não é enfrentado pelo poder público com prioridade. Para Miranda, o mar não deve ser o destino final do esgoto produzido nas cidades. “Você nota que o problema do Riacho Doce é de saneamento básico; os nossos representantes não conseguem resolver algo primário. Jogar esgotos ao mar, apesar de a água salgada ter uma grande capacidade de assimilação, é bastante preocupante porque o oceano não pode ser tratado”, analisa.

A poluição do Riacho Doce também levanta outra preocupação ao presidente: a preservação da vida marinha. “Atualmente existe uma alta taxa de mortalidade de tartarugas marinhas devido a poluição de áreas como essa. As tartarugas não identificam o que é lixo e o que é comida. O plástico está se tornando um veneno para esses animais. É fatal. Então a poluição do Riacho Doce certamente está colocando em risco a vida desses animais, à biodiversidade, aos microrganismos”, enfatiza.
As causas da poluição do rio de Riacho Doce, segundo o especialista, são das mais diversas. Porém, ele explica que a administração pública deveria incluir no plano diretor ações para preservar o meio ambiente. Miranda também afirma que tratar os rios em áreas urbanas é uma questão que visa garantir a qualidade de vida para as futuras gerações.

“Parte do problema de Riacho Doce está ligado as lagoas de tratamento do Benedito Bentes. Essas lagoas nunca funcionaram, o motivo eu desconheço. Juntamente a esta causa, o avanço do mercado imobiliário forma uma bomba de efeito retardado. A outra causa fica por conta das construções irregulares de conjuntos habitacionais”, frisa.

De acordo com Miranda, o descuido com as águas não acontece apenas no Riacho Doce. Os rios de Maceió, na grande maioria, sofrem devido ao avanço urbano desordenado. “Já que a principal vocação do Estado é o turismo, por que não cuidar das nossas águas?”, questiona.

A preocupação do presidente da Comissão da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, já foi comprovada pelos dados de uma análise realizada pelo Instituto de Meio Ambiente (Ima). O estudo apontou que a água do rio traz prejuízo a saúde de quem as utiliza. “Salientamos que os referidos pontos de amostragens do rio Riacho Doce estão recebendo águas residuárias características de esgotos sanitários”, atesta o relatório do órgão.

As amostras foram colhidas na foz e calhas do rio Riacho Doce, nas saídas da galeria de águas pluviais do loteamento residencial Riacho Doce e na saída da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) da Companhia de Abastecimento e Saneamento de Alagoas (Casal), no Benedito Bentes.
Nele também são apontadas algumas doenças que o contato com a água pode causar, dentre elas estão a Cólera, Disenteria Bacilar, Febre Tifóide, Febre Paratifoide, Diarréia Infantil, Poliomielite, Hepatite Infecciosa, Ancilostomíase, Leptospirose e Esquistossomose.
No cruzamento dos dados com a causa da degradação, o relatório indica que as condições de funcionamento da ETE da Casal não são suficientes para o tratamento de resíduos. Mas nele também é enfatizado que as construções de habitações irregulares causam grandes prejuízos a degradação do rio Riacho Doce.
“É constatado que as residências construídas às margens ribeirinhas da bacia hidrográfica rio Riacho Doce caracterizam intensos impactos ambientais em APP, alterando e impactando o ecossistema natural da referida bacia. Portanto, vale salientar que os impactos ambientais encontrados na bacia hidrográfica rio Riacho Doce estão diretamente ligados com a ação antrópica de ocupações irregulares às margens da bacia”, afirma.

Ministério Público Federal e Estadual cobram solução para a poluição

A poluição no Riacho Doce foi alvo de dois processos: um em âmbito estadual e outro a nível federal. No momento, um inquérito no Ministério Público Federal (MPF) está em tramitação e cobra medidas da Prefeitura de Maceió e da Companhia de Abastecimento e Saneamento de Alagoas (Casal). A Casal firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para se comprometer em solucionar o problema com o Ministério Público Estadual (MPE).

Em nota, a Casal explica que a lagoa de estabilização do órgão, localizada no conjunto habitacional do Benedito Bentes, não é suficiente para poluição do Riacho Doce. “A distância entre a lagoa do Benedito Bentes a Riacho Doce é de aproximadamente 14 quilômetros. Nesse trajeto, há depuração e infiltração de efluentes da lagoa, de modo que a quantidade que chega ao riacho é insuficiente para causar elevado grau de poluição”, enfatiza.

A companhia também esclarece que as três lagoas de estabilização do conjunto funcionaram durante anos, mas que atualmente apenas uma delas está em operação devido a furtos de equipamentos. A Casal afirma que uma obra será iniciada para substituir as lagoas por uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). “A previsão é de que nos próximos 36 meses a estação esteja concluída” estima a companhia em nota.

Já a Prefeitura de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Sedet), afirmou em nota que a mancha escura encontrada em Riacho Doce é proveniente da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) do Benedito Bentes, pertencente à Casal.


Riacho Doce

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