No olho da R.U.A

A antiga residência universitária se chamava Ceu, abreviação para Casa dos Estudantes Universitários, e se localizava na Praça Visconde de Sinimbu, no Centro de Maceió. Dedicado a uma série de atividades culturais inseridas no universo acadêmico, o espaço foi, por muito tempo, negligenciado pela gestão, na época, do Reitor Eurico Lobo. Um vídeo produzido pelos que ali moravam entrega as condições desumanas em que viviam os jovens. Basta dar o play e se espantar.

Próximo ao reservatório de água, um esgoto. Nos poucos banheiros que não foram interditados, formigueiros infestavam as bacias. Fossas entupidas, infiltrações no teto e quedas de energia completam o quadro. Há pouco menos de um mês para entregar as novas residências estudantis, estas construídas dentro do campus A.C. Simões, a gestão de Lobo enfrentou a interdição da cozinha que funcionava na Ceu. Após denúncias à Vigilância Sanitária, quentinhas passaram a ser enviadas aos estudantes. Quentinhas produzidas no próprio RU. Da Universidade Federal de Alagoas até a praça Sinimbu, uma hora de viagem. Nas quentinhas? Baratas.
Era Natal.
O procedimento correto, segundo a própria legislação, seria reformar a cozinha da residência. Nada feito. Os fogões enferrujados e impróprios para o uso foram realocados para o novo Restaurante Universitário.

Em 19 de janeiro de 2016, Eurico Lobo inaugurou a Residência Universitária Alagoana (RUA). A obra, que custou R$ 919, 360, 78 foi entregue inacabada. O que foi presenciado pela comunidade acadêmica foi a pressa do gestor em exibir feitos que na verdade estavam incompletos. Antes mesmo das mudanças de estudantes acontecer, problemas nos prédios foram identificados e questionados.

Quartos sem chaves e trancas, tomadas desencapadas, portas danificadas, banheiros sem chuveiros e buracos abertos no teto. Para maior segurança, os alunos reivindicaram a construção de um muro e portões. O monitoramento aos finais de semana ficaria mais fácil assim. Com os estudantes se deslocando da Sinimbu para o campus para dividir quartos com no mínimo 3 pessoas, a nova residência estava ocupada. Os reparos exigidos antes ou durante a vivência dos estudantes?
Nunca aconteceu.

Em 22 de fevereiro, a primeira assembleia com a gestão Valéria ocorre. Em oito de abril, o gerente da Superintendência de Infraestrutura da Universidade Federal de Alagoas (SINFRA/UFAL), Dilson Batista Ferreira, se comprometeu em realizar os reparos na residência universitária. Segundo ele, até o dia 26 de abril tudo estaria resolvido. Estamos em novembro de 2017. É interessante voltar um pouco no tempo para entender a situação.

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NO OLHO DA RUA

Em dezembro de 2015 a Ufal deu início a mais um processo seletivo para os Programas de Assistência Estudantil. Depois de três meses de seleção, com direito a retificação e cronogramas modificados durante o período, os resultados preliminares começaram a ser divulgados. Penedo, Delmiro Gouveia, Arapiraca, Palmeira dos Índios e Santana do Ipanema. De todos os campi da Ufal, passando de Agreste ao Sertão, apenas os estudantes de Maceió foram contemplados no programa de  Residência Universitária Alagoana (Rua). O que aparentemente seria a solução para alguns problemas vem se mostrando um impasse na formação desses jovens alunos.

O estudante Maykson Douglas relata sua experiência há dois anos na R.U.A como hóspede.

Quando em julho deste ano, o jornal Gazeta de Alagoas publicou uma matéria afirmando que a Ufal poderia encerrar suas atividades por falta de verbas a comoção foi geral. Técnicos, estudantes, professores. A sociedade demonstrou preocupação com a possível falência da academia. Mas basta olharmos para o passado e identificar que a precariedade dos serviços ofertados pela instituição é um caso antigo. Como se a Ufal estivesse definhando. Motivo até mais revoltante que a continuidade do que está sendo feito e datado de muito antes do Governo Michel Temer cortar 40% do orçamento da universidade. Um impacto de R$ 23 milhões a menos para encerrar o calendário letivo deste ano. Para 2018, a verba esperada é de apenas R$ 1 milhão. O que a quantia banca dentro da realidade atual?

INVESTIMENTO

Em 2017, a Ufal teve valores contingenciados que somaram os R$ 14 milhões. Durante entrevista concedida à TV Mar em outubro, a reitora Valéria Correia chamou atenção para a redução dos recursos destinados à pesquisa na universidade. Uma queda de 44% que “compromete o desenvolvimento social”, segundo ela. O Brasil ocupa hoje o 13º lugar no ranking mundial de pesquisas acadêmicas. No país, 85% das pesquisas desenvolvidas nas mais diversas áreas são promovidas por universidades. São estatísticas que deixam toda a situação ainda mais preocupante. Se todo o quadro é negativo considerando números desse gabarito, o que se pode esperar com o orçamento previsto pelo Governo Federal para o ano que vem?

Um milhão para luz, água e comunicação. Um milhão para manutenção, pesquisa e extensão. Um milhão para manter 113 cursos de graduação e mais de 30 mil alunos. Um milhão para garantir condições dignas de trabalho para 1.515 professores efetivos e 1.682 técnicos administrativos. Um milhão para 22 unidades acadêmicas e 3 campi. Para o Ministério da Educação (MEC), a crise econômica e a consequente queda na arrecadação de tributos é o principal fator para os baixos investimentos.

Para o ano letivo atual, a Ufal teve orçamento fixado em R$ 780 milhões. Até abril deste ano, a universidade havia recebido apenas R$ 23,4 milhões. As previsões iniciais eram de que apenas 70% do valor estimado seria recebido. Sete meses depois, o que se sabe é que apenas R$ 800 mil  foram liberados para investimentos. O esperado era de R$ 3,1 milhões.  A tabela de gastos da universidade fica da seguinte forma: 78% com gastos da folha de pessoal (608,4 milhões); 16% para equipamentos e obras (124 milhões) e 4% com custeio com limpeza, segurança e viagens (6 milhões).

 

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TEORIA E REALIDADE DA RUA

Segundo edital, a Rua  visa oferecer uma política de moradia estudantil para uma determinada parcela dos estudantes de graduação presencial oriundos de outros municípios do Estado e de outros Estados da Federação. A ideia é favorecer as condições para a permanência do estudante na educação superior.

A residência está contemplada no Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), que é executado no âmbito do Ministério da Educação. Seus objetivos são minimizar os efeitos das desigualdades sociais e regionais na permanência desses jovens na graduação, reduzir as taxas de retenção e evasão dos mesmos e ainda contribuir para a promoção dessa inclusão social através da educação.

O estudante de Design Ayran Macedo, conta que o estresse psicológico enfrentado pelos moradores da Rua beira o caos. O distanciamento da família e a falta de acompanhamento adequado por parte da gestão da Ufal são responsáveis por acarretar doenças graves na maioria dos residentes.

“Eu convivo com pessoas que têm estruturas de formação totalmente diferentes da minha. Morar aqui é uma mudança de ar muito diferente. Eu, por exemplo, vim de São Paulo. A cultura de lá é diferente da Nordestina, da alagoana.” Segundo ele, no meio de toda essa adaptação a Pró-Reitoria não funciona como um órgão gestor eficiente. “Acabamos num ciclo de autogestão muito grande. É como se a Proest fosse uma instância da universidade que apenas pagasse as contas daqui.”

O que eles esperam ver em ações pela residência simplesmente não acontece. “Teoricamente deveríamos ter um administrador nos acompanhando de perto, mas nem isso. Há meses o que estava conosco, o Sr. Ulisses, afastou-se por problemas de saúde e nunca foi substituído”, explica Ayran. Sem um zelador, os estudantes acabam interferindo diretamente na organização do espaço. Em aspectos que não deveriam ser de responsabilidade de graduandos. “Se uma lâmpada quebra, a gente precisa entender todo o ritual para trocá-la, no sentido de entender todo o processo para facilitar o processo para a Proest”, relata.

Em vigor desde julho de 2010, a partir do decreto N. 7.234, o PNAES tem enfrentado dificuldades. Uma simples busca na internet, considerando os últimos meses, aponta uma série de problemas. Situações tão absurdas como a falta de água potável nas residências universitárias. Vale ressaltar que as ações de assistência estudantil devem ser desenvolvidas nas seguintes áreas além da moradia estudantil: atenção á saúde, transporte, alimentação, inclusão digital, cultura, esporte, creche, apoio psicológico e acesso à participação de estudantes com “deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades e superdotação”. Na teoria, o ideal, na realidade, algo bem diferente acontece.

Seis dias sem água para beber. Seis dias fervendo água da torneira para torná-la própria para o consumo. No mês de outubro, os estudantes da residência universitária do Campus A.C. Simões, em Maceió, estiveram reunidos em frente ao prédio da Pró-reitoria Estudantil (Proest) para protestar. Dos 30 galões necessários por semana para suprir as necessidades dos moradores, nenhum fora enviado no período. Ao todo, são 150 estudantes vivendo em cinco prédios que formam o RUA. O local, que deveria possuir infraestrutura para que os jovens estudem e convivam em condições minimamente dignas não possui se quer sinal de internet. A falta de água, inclusive, é recorrente.

“Sentimos um descaso, óbvio, mas talvez eles não vejam dessa forma. Algo complicado já que as doenças psicológicas reinam por aqui”, revela Ayran, sobre quadros depressivos e surtos de ansiedade. Segundo ele, um estudante acaba adoecendo o outro. “A gente se sente de lado, e nem é questão de sentimento, é de efetividade mesmo. Porque estamos abandonados. Perdemos disciplinas em nossos cursos por falta de remédio e perdemos saúde por falta de água.”

No mesmo mês, criminosos armados invadiram os prédios, agrediram um vigilante e roubaram diversos pertences. Três celulares e um notebook. Esse foi o prejuízo do assalto ocorrido na madrugada do dia 17. O único vigilante que realiza a patrulha do local recebeu um chute no rosto e quase fora baleado. Outras vítimas poderiam ter sido feitas. A invasão ocorreu na madrugada, por volta das 1h15, por cinco indivíduos que nem se preocuparam em esconder os rostos. Como se o ato não tivesse muita importância ou fosse digno de cuidados.

Sobre o ocorrido, a assessoria de Comunicação da Ufal informou que “providências operacionais e legais cabíveis” foram tomadas. Rondas da Polícia Militar foram reforçadas no entorno do campus e uma espécie de grupo de trabalho foi criado para pensar em possíveis soluções.

A estudante Alessandra Keilla relata como é ser mulher dentro da R.U.A.

“A atual gestão, como um todo, sofre com a falta de informação. O diálogo existe, mas parece que a reitora não sabe o que se passa na própria universidade. A sensação que se tem é que ela se inteira do assunto ali na hora. O argumento que ela sempre usa é o de que não sabia. Como é que uma gerente de órgão não tem conhecimento sobre o que seus subordinados fazem?”, reflete o estudante.

PROEST

A Assistente Social e Gerente de Assistência Estudantil da Proest, Manuela Aragão, os recursos da Residência Universitária são destinados para atender, exclusivamente, os alunos em vulnerabilidade socioeconômica. O último edital segue regente até o dia 6 de dezembro, na publicação foram convocados e contemplados 137 alunos.

“Nesse edital foram ofertadas vagas para a residência e de auxílio moradias. Que são modalidades diferentes, a primeira disponibiliza a moradia, a outra uma bolsa de R$ 300. “Atualmente temos 137 estudantes vivendo na RUA e mais 30 hóspedes. Que são pessoas não encaminhadas institucionalmente pela Proest, mas recebidas por colegas dentro da universidade. São pessoas recém-chegadas à Ufal e outras que já estão na lista de espera do próximo edital”, explica Manuela.

Sobre o Sr. Ulisses, antigo administrador da residência, a Proest afirma que ele ainda é o responsável por fazer a comunicação dos estudantes com a pró-reitoria. “Além disso, temos uma equipe de referência que atende aos estudantes. Essa equipe é formada por uma assistente social, um psicólogo e um pedagogo. E fora isso os estudantes tem acesso livre a pro-reitoria”.

O estudante Luiggi Canário faz um desabafo sobre a superlotação na R.U.A.

 

Expediente: Felipe Miranda, Franklin Lessa, Ingryd Rodrigues e Juliana Amaral

Reportagem desenvolvida para disciplina Oficina de Tecnologias Contemporâneas de Comunicação

 

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